Arte, pandemia e sobrevivência foi o tema do Ciclo de Debates da última quinta-feira (11)

A live abordou várias nuances do fazer artístico e do papel da arte em tempos de pandemia e autoritarismo


Em tempos de pandemia e isolamento social, as pessoas são colocadas diante de uma dura realidade. Mudanças nos hábitos, trabalho remoto e o angustiante confinamento dentro dos lares, que impactou a vida de milhões de brasileiros. Foi nesse clima de incertezas e transformações que um campo extremamente importante ganhou e perdeu espaço ao mesmo tempo: a arte.


Por um lado, com mais tempo em suas casas, as pessoas consomem mais artes audiovisuais, literatura, música, assistem a lives diversas. Em contrapartida, profissionais de diversos setores artísticos estão vivendo à deriva, sem possibilidades de trabalho e impedidos de exercer seus múltiplos projetos.


Este foi o tema do Ciclo de Debates realizado pelo Sinds-UFSJ e pela ADUFSJ – Seção Sindical, na última quinta (11), com mediação da professora de Educação Física e técnica de laboratório em lazer e Desenvolvimento Social da UFSJ, Telma Freitas.


Profissionais da arte


“Eu acho que a arte em todos os seus seguimentos: música, teatro, cinema, literatura. Ela tem algo muito importante que é a reflexão. A arte nos permite refletir em vários campos: político, emotivo, na relação social, particular e pessoal. E nesse momento pandêmico, de solidão, ela nos traz o contato com o externo” pontuou Priscila Chagas, Cenógrafa e Mestranda em Artes Cênicas pela Universidade Federal de São João del-Rei.




Priscila também destacou que estudar, trabalhar e viver de arte no Brasil, não é uma escolha fácil. “Pra você escolher estudar arte, não vou nem falar trabalhar, mas estudar! Você tem que ter uma condição social que te permita isso. Não é uma escolha em que você vá pensar economicamente, em ser bem sucedido e ter uma vida estável!” destacou. Sobre isso, a técnica ainda reforçou “A arte e a cultura no nosso país não nos trazem estabilidade. Estamos o tempo todo dependendo de edital e de fomento!”.


Desvalorização do trabalho


Juliano Pereira é Diretor e integrante do Teatro da Pedra, grupo artístico e teatral de São João del-Rei, que desenvolve teatro, música, dança e também projetos educacionais de fomento à arte, como o “Arte por toda Parte”, desenvolvido em parceria com instituições de ensino e entidades sociais da cidade. Ele destaca a desvalorização da arte e da cultura no interior do Campo das Vertentes.


Outro participante foi Juliano Pereira, diretor e integrante do Teatro da Pedra, grupo artístico e teatral de São João del-Rei, que desenvolve teatro, música, dança e também projetos educacionais de fomento à arte, como o “Arte por toda Parte”, em parceria com instituições de ensino e entidades sociais da cidade.


Na sua participação, ele destacou a desvalorização da arte e da cultura no interior do Campo das Vertentes. “A gente tem que lutar e convencer uma gama de pessoas que o teatro tem que ser pago, porque as pessoas ligam e pedem pra você fazer o trabalho e perguntam se tem que pagar. Claro. É o nosso trabalho”, afirmou.


O diretor também ressaltou uma supervalorização de algumas categorias artísticas em detrimento de outras. “Ao mesmo tempo que eles têm a dificuldade de entender que o teatro deve ser pago, eles pagam uma série de artistas, mas é legal ampliar o entendimento, pois, nós artistas, somos vários. (...) Há uma desigualdade muito grande no campo da arte”, desabafou.


Pereira também trouxe reflexões sobre a arte não ser apenas válvula de escape das tensões cotidianas, mas também, instrumento crítico para a reflexão social. “A arte pode sim nos libertar. Nos fazer entender a diversidade e a pluralidade, nos libertando do domínio econômico e cultural. A arte pode nos fazer entender e nos reconhecer como nação. E isso é fundamental”, destacou.


Lei Rouanet


Professor do Curso de Artes Aplicadas da UFSJ e artista plástico do espaço Adro Galeria, Ricardo Coelho aprofundou a discussão sobre a Lei Rouanet, alvo de tantas críticas nos últimos anos. “O que você faz é um projeto técnico e esse projeto é analisado por uma equipe técnica do Ministério da Cultura (o extinto) e eles aprovam se ele está dentro ou não das especificações técnicas”, esclareceu.

O artista plástico também destacou que, após a aprovação do projeto, existe um complicado procedimento de captação dos recursos. “A partir daí, você vai ter que procurar empresas e pessoas físicas que se disponham a doar parte do seu imposto de renda pra que essa produção ocorra, e você tem a obrigação de divulgar essa marca”, completou.

Segundo Rocha, apesar de toda a dificuldade no procedimento, o mecanismo tem dado espaço para artistas que não sejam grandes nomes do cenário nacional. “Ao mesmo tempo que premia artistas nacionalmente conhecidos, também possibilita que os projetos interessantes, originais, realizados em locais como São João del-Rei, como é o caso do Teatro da Pedra, também consigam recursos” concluiu o professor.

Mais debates

A live abordou várias nuances da importância da arte nestes tempos de pandemia, negacionismos e autoristarismo. E foi encerrada com o público e os debatedores demandando novos espaços para discutir mais sobre o tema.


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