CARTA ABERTA: “Da lama ao caos”

Não à segregação de estudantes, servidores e docentes da UFSJ; sim à defesa da vida do povo brasileiro e do seu patrimônio!


Que os pensamentos e princípios do patrono da educação popular Paulo Freire possam nos inspirar nas próximas linhas. E que tenhamos a mesma coragem e certeza de todes aqueles que irmanades em luta formaram fileiras conosco na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), na tarde do último dia 21 de outubro de 2021, no Campus Santo Antônio, com o objetivo de protestar, em meio a um evento estarrecedor que segregou servidores e estudantes de um lado e, colocou do outro, as polícias civil e militar, políticos inimigos da Educação e a gestão da UFSJ.


Revolta, indignação e traição – são esses os sentimentos que estavam estampados na face de cada militante naquela tarde, acossades, até com certa truculência, por agentes da segurança do governador, polícia militar e civil, que ainda faziam sobrevoo de helicóptero no entorno do Campus da UFSJ.


Isto não é fake news, é fato!

Todo esse cenário de coação e constrangimento visava tão somente garantir que não ocorresse manifestação crítica contra os membros da trupe, durante a entrega de recursos advindos dos crimes da Vale. Cabe ressaltar que ninguém soube explicar até agora porquê esses recursos estão sendo distribuídos pelo Governador como se fossem oriundos dos cofres públicos. A falta de democracia e transparência começa aí, na origem e na gestão dos recursos. Voltando ao dia 21, essa fúnebre comitiva era composta por agentes políticos como Nivaldo José de Andrade (prefeito de São João del-Rei), Romeu Zema (governador de Minas Gerais) e Dr. Frederico (deputado federal), conhecidos incentivadores de ataques incessantes à Universidade Pública brasileira.


Esses indivíduos são responsáveis por posições e ações constantes de ataque ao setor público brasileiro, são defensores do governo fascista de Jair Messias Bolsonaro, ao adotarem posturas similares às do governo federal, e, assim, provocarem uma tragédia sem precedentes na História do país: são defensores de medidas que causaram a morte de mais de 600 mil brasileiros durante a pandemia de Covid-19, com a indicação do uso de medicamentos sem comprovação científica e do retorno ao trabalho presencial sem segurança sanitária; eles ainda aprovaram a Reforma da Previdência, com benefícios aos militares e ataque ao povo, sancionaram a Reforma Trabalhista, que é, ao menos em parte, responsável pelos 14 milhões de desempregados; defenderam o corte nas verbas das Universidades Públicas e da Ciência; apoiam o desmonte de órgãos ambientais como Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente (Codema); e agora querem a famigerada Reforma Administrativa, conhecida como PEC 32. Além disso, em São João del-Rei especificamente, eles lutaram e lutam para retirar parte do espaço do Campus Tancredo Neves (CTAN) e entregar ao setor privado. Espalham asfalto sobre os investimentos em educação e saúde no município, atuando como verdadeiros predadores do setor público. Diante de tudo isso, no dia 21 de outubro de 2021, as autoridades citadas anteriormente estavam sendo acolhidas em recepção fraterna e cordial pela gestão da UFSJ.


Do outro lado, encontravam-se encurralades, como criminoses, entre cordas, portões e um batalhão de policiais, servidores e estudantes da UFSJ, como também militantes de outros sindicatos e movimentos sociais, que relembraram, com tristeza, dos tempos da ditadura e de ações que costumam ser feitas nas periferias das grandes cidades contra a população marginalizada. A situação constrangedora fortaleceu a simbologia de marginais e delinquentes, que forja uma narrativa fundamental para a manutenção dos processos de opressão e que cria um fosso mantendo de uma lado sindicalistas, ativistas e manifestantes, e de outro os demais trabalhadores e trabalhadoras, como se não fossem todes participantes da mesma categoria.


Em enorme paradoxo, esses, que receberam um tratamento segregado como delinquentes dentro da UFSJ, são os indivíduos e seus sindicatos sempre chamados à luta pela comunidade universitária, e que respondem com presteza, sendo em muitos casos as únicas forças em luta pela sobrevivência da Universidade. Vide a luta contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Teto de Gastos em 2016, com as ocupações históricas nos campi Universitários e batalhas em Brasília, o enfrentamento às Reformas da Previdência e Trabalhista, a luta pelo isolamento social de toda classe trabalhadora, da vacinação aos mais vulneráveis e de forma ampla, do auxílio emergencial razoável aos atingidos pela pandemia, na defesa dos ataques aos servidores públicos, pela manutenção e ampliação das verbas para saúde e educação.


E mesmo em cenário tão hostil têm sido determinantes nas conquistas essenciais como a recuperação do orçamento das universidades em 2019, com as jornadas nas ruas do país de maio e junho de 2019, destaques na eleição democrática e posse do reitor da UFSJ, eleito em 2019, quando as entidades sindicais e Diretório Central dos Estudantes (DCE) foram essenciais na garantia da vontade democrática da sua comunidade, as campanhas de solidariedade na pandemia dos sindicatos junto aos movimentos sociais, a luta pelo não retorno presencial em janeiro de 2021, com a defesa da vida de servidores e discentes contra a posição de membros da UFSJ que defendiam a abertura dos Campi em plena onda roxa. É importante lembrar que, naquela época, também nos acusaram de usar fake news. Pois, com certeza, nossa resistência, insistentemente deslegitimada pela gestão, mas respaldada em outros órgãos colegiados dos quais membres desses sindicatos participam, foi fundamental para impedir a epidemia de entrar nas dependências da UFSJ e ceifar vidas de colegas, estudantes e da comunidade das cidades sede. Era de vida que falávamos e estávamos certos, e é disso que continuamos falando.


Por isso, a tarde do dia 21 de outubro de 2021 entra como um marco que precisa ser avaliado com toda a crítica e seriedade: não é aceitável que a Universidade Pública reforce e promova ações que reproduzam uma sociedade injusta. Isto levantou questões que ainda não foram respondidas. A primeira delas é: por que a reitoria aceitou que esse evento ocorresse nas dependências da UFSJ, numa conjuntura de retirada de investimentos de todos os tipos da educação pública brasileira, inclusive com retirada de bolsas de professores/as e estudantes? Os membros da gestão precisam perceber que o evento nas dependências da universidade reforça a ideia equivocada, porém amplamente difundida na sociedade, de que “reclamamos de barriga cheia”, sem saber que recursos intermitentes não são capazes de manter o trabalho acadêmico e também que esses recursos sequer foram destinados aos inevitáveis gastos que precisam ser feitos para assegurar um retorno presencial realmente seguro.


As outras questões se referem a onde estava o povo na cerimônia da elite política? Onde estavam estudantes e servidores da UFSJ? Onde estavam as filhas, os filhos, as netas, os netos, as mães e os pais das pessoas mortas nos crimes da Vale? Onde estavam as famílias sem corpos dos seus entes que ainda estão na lama? Onde estavam os elaboradores de projetos contemplados com os recursos dos crimes da Vale? Quanto a isso, a comunidade acadêmica começa a se perguntar sobre os procedimentos utilizados para a distribuição desses recursos, sem critérios oficialmente publicizados e, assim como a origem dos recursos, também sem transparência.


Para nós parece claro que não devemos abraçar os acobertadores da desigualdade e negligência, e nem excluir com policiamento os que são convocados à luta sempre que a ameaça paira sobre a UFSJ. Mas, foi o que aconteceu! Em um palanque com clima festivo e eleitoreiro estava todo um grupo de políticos e autoridades sem relação alguma com os mortos e soterrados da Vale, ou com a Universidade. Entre esses, alguns desfilaram sem máscara pelo Campus em desafio aos manifestantes, numa demonstração de que lado escolheram estar. Indigna e abjeta a cena vista na UFSJ, a polícia vigiava quem deveria proteger, pois os criminosos estavam na tenda com os membros da gestão, e não no curral montado pela polícia.


Diante de tudo o que foi colocado nesta carta de pura indignação, queremos alertar, mais uma vez, os membros da gestão da UFSJ, de que é preciso saber ler o espírito político do nosso tempo, compreendendo a necessidade imperiosa da gestão de resistir - e não de se submeter - ao jogo político e das politicagens que sabemos que aumentam a partir dos cortes e da desvinculação orçamentária. Nessa conjuntura, acreditar que só discursando se impedirá as perdas e o desmonte é não estar pronto ao que o momento exige. A reitoria poderia ter evitado essa situação, inclusive com as justificativas elencadas pelo reitor no evento, se não tivesse permitido que lacaios políticos usassem o espaço da UFSJ para promoção pessoal. Os tempos políticos requerem coragem e ousadia, e já é tempo de escolher o lado em que se quer estar.


Reiteramos a nossa total reprovação à ação contra as nossas direções sindicais, acossadas e sendo instadas a apresentar identificação dentro da Universidade em que atuam, bem como que apresentassem documentos que permitissem estar no Campus em legítimo protesto. Afinal, os sindicatos, DCE e movimentos sociais ao longo de 2021 já mostraram nas ruas e redes sociais onde estarão no combate; assim, cabe à gestão e ao restante da comunidade universitária definir se estará com os democratas ou com os fascistas. O tempo corre, e os movimentos dúbios e vacilantes só aumentam a culpa dos indecisos que se omitem contra as injustiças.


Movides por essa perspectiva, queremos fazer uma convocação para todes que ainda acreditam em uma Universidade Pública, democrática e socialmente referenciada que possam se posicionar contra a transformação da Universidade em espaço de truculência, abuso e proselitismo político feitos com recursos, de origem e gestão sem transparência e sem o controle da comunidade acadêmica, e, além disso, manchados de sangue, dor e morte.


ADUFSJ - Seção Sindical

Sinds-UFSJ