Debate:Adiamento do Enem e cenário político nacional

O adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi a pauta da live promovida pela Seção Sindical dos Docentes da UFSJ (ADUFSJ) e do Sindicato dos Servidores da Universidade Federal de São João del-Rei (Sinds UFSJ), na última quinta-feira (21). De acordo com deputado federal Rogério Correia (PT-MG), o adiamento do Enem é uma vitória para o país, mas é preciso seguir atento. 

O adiamento do Enem foi uma batalha encampada pelos estudantes brasileiros, com o apoio de partidos políticos, movimentos sociais, sindicais e populares, para proporcionar que os estudantes que estão sem aulas e não têm acesso aos recursos tecnológicos tenham as mesmas chances que os demais na disputa. 


Na terça (19) o Senado aprovou, por 75 votos a 1, o projeto de lei que prevê o adiamento do ENEM até o final do ano letivo. O único voto contrário foi do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Na quarta (20), quando o projeto já estava no plenário da Câmara e sua aprovação era certa, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou no Twitter o adiamento da prova. “Se o governo retroceder e o Enem não for adiado, nós podemos voltar à pauta”, diz Rogério Correia. 

Ao contrário do projeto aprovado pelo Senado, o adiamento proposto pelo governo Bolsonaro tem data marcada para terminar: entre 30 e 60 dias. A decisão final, conforme o MEC, será dos próprios estudantes, por meio de consulta virtual a ser marcada.



Educação e pandemia


Para o deputado, a forma como o governo Bolsonaro tem lidado com a questão do Enem é reflexo da maneira como enfrenta a pandemia no país. “Os mais pobres sofrerão mais do que os que têm melhores condições”, diz. De acordo com ele, o governo considera que os estudantes de escolas públicas serão atingidos da mesma forma que os alunos da rede privada. 


Com o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), em 2003, e o Sistema de Seleção Unificada (SiSU), em 2010, as universidades de todo o país passaram por um processo de reestruturação. O número de vagas foi ampliado e o ingresso de estudantes, principalmente os das classes populares, se tornou mais fácil. “Isso causou muito incômodo na classe média que se acha rica. Essas pessoas estavam incomodadas com a ascensão social do brasileiro”, diz Márcio Eugênio Silva Moreira, técnico em Assuntos Educacionais da UFSJ. 


Segundo ele, é impossível que haja igualdade no Enem 2020 entre alunos de escolas que possuem inclusão de digital e têm acesso à computadores e rede internet e os estudantes de instituições sem esse tipo de aparelhagem e que não possuem equipamentos digitais em casa. 

Além disso, Márcio Eugênio considera importante que a pauta do adiamento continue sendo constantemente monitorada. “Eu penso que 30 e 60 dias é um começo, mas ainda precisamos ir a luta e garantir que esse adiamento se dê até quando tiver o mínimo de injustiça possível”, defende. 


Cursinho Edson Luís


O Cursinho Popular Edson Luís foi criado em 2014 e atende estudantes que irão prestar vestibular. O objetivo é proporcionar ensino de qualidade gratuito principalmente para alunos da rede pública e de baixa renda. 


Maria Clara Silva de Souza, que pertence ao núcleo pedagógico do cursinho, diz que o Enem 2020 é visto com preocupação pelo projeto, que precisou se adaptar ao meio digital para continuar atendendo os estudantes. 


Há cerca de um mês, o Cursinho Edson Luís passou a disponibilizar videoaulas no YouTube manter contato direto com os alunos via WhatsApp e e-mail, com o objetivo de continuar os estudos preparatórios para o Exame. 

De acordo com Maria Clara Silva, a pandemia na educação no Brasil “deixou exposta uma ferida que a gente já sabia que existia: alunos que não têm acesso à internet, que vão pra escola só para merendar, etc”. 




Impeachment de Bolsonaro


De acordo com o deputado Rogério Correia, o Brasil passa por crises econômicas, sociais e políticas que estão sendo agravadas pela pandemia. “É um governo que, ao invés de buscar unificar para combater no coronavírus, ele desune, como sempre faz, pois é a única forma que tem que governar”.


Na quinta (21), foi protocolado na Câmara dos Deputados um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro, feito em conjunto por 400  juristas, organizações da sociedade civil e partidos da oposição, incluindo o PT. 


Até o final de abril, já haviam sido entregues 26 solicitações do tipo, de acordo com pesquisa realizada pelo Congresso em Foco. De acordo com o deputado Rogério Correia, Bolsonaro vêm cometendo uma série de crimes contra a democracia desde sua eleição. 

Para Márcio Eugênio, é importante lembrar que as elites se estruturam em torno da questão econômica no Brasil. “Para ter o impeachment, precisa ter movimentação popular, não podemos ter a ilusão de que a direita vai nos ajudar”, reforça.