Debate: Gênero, trabalho e ética do cuidado em tempo de pandemia


Os participantes destacaram as transformações sociais que perpassam a temática e o agravamento das mazelas e da precarização do trabalho. Também foram abordadas as facetas históricas e sociais da sociedade brasileira e o papel dos movimentos sociais, sindicais e solidários nesse momento crítico.

Dando continuidade ao Ciclo de Debates realizado pela ADUFSJ– Seção Sindical e o Sinds UFSJ, na noite da última quinta-feira (15), foi realizada mais uma transmissão ao vivo com o tema “Gênero, trabalho e ética do cuidado em tempo de pandemia”. Os convidados abordaram as nuances desse assunto amplamente debatido e que após o advento da pademia ganhou novos contornos e agravamentos frente às mudanças sociais ocorridas, no mundo do trabalho e também no mundo do cuidado.


Quem mediou o debate foi a jurista, 1ª Secretária da ADUFSJ e professora do DECIS da UFSJ, Maria Clara Santos. O encontro, também contou com a participação da Educadora popular, e militante dos movimentos de agroecologia e economia solidária de São João del-Rei e membro do Coletivo Meninas de Nhá, Conceição Maria, conhecida por Tutuca. Participaram ainda, o Professor de Direito do Trabalho da UFMG e membro da Diretoria de Direitos Humanos, Relações Étnico-raciais, gênero e sexualidade da APUBH, Pedro Augusto Gravatá Nicoli, e Tatiane Marina Pinto de Godoy, Professora do DEGEO-UFSJ e representante do CRADUFSJ.


Ao abrir a discussão, direto dos EUA, que é um dos epicentros da crise do coronavírus, o professor Pedro Nicoli, reforçou a importância de os sindicatos estarem engajados em trazer pautas como essas para o debate. “Para mim é uma alegria muito grande, ver essas temáticas aparecendo no universo das relações sindicais, uma vez que os sindicatos tem mesmo que se abrir para a compreensão desses universos que atravessam a luta sindical.”.


O pesquisador também destacou alguns pontos devem ser refletidos ao se tratar da temática do cuidado, linha de pesquisa para qual ele dedica seus estudos na seara do Direito do Trabalho. “Gostaria que pudéssemos pensar juntos algumas questões ao redor da ideia do cuidado: o cuidado como trabalho, o cuidado como algo essencial ao humano e o cuidado especialmente, como algo que historicamente é tratado de maneira desvalorizada, e feito de maneira socialmente localizada.” pontuou.


A ativista Conceição Maria, engrandeceu a discussão, traçando inicialmente uma correlação histórica entre a pandemia e a fome. “Eu vim de um histórico de ação da cidadania, do Betinho, e a gente já enfrentou uma outra pandemia, que era a morte de tantas pessoas, de fome[...]”. Tutuca também apresentou uma das frentes de luta da qual participa “ [...] como a gente tem atuado nesse tempo de pandemia: temos trabalhado com a questão de suprir com alimentos saudáveis algumas famílias, pois eu faço parte do movimento de Economia Solidária, que é um outro modo de viver” destacou.


Em relação ao cuidado e a qualidade de vida, Conceição afirma que: “É possível que todos no território tenham acesso a qualidade, e não é só dos alimentos não, das relações também, de dividir os trabalhos entre os grupos, para que todas tenham renda. A gente tem tentado fazer isso há muito tempo, e com algum êxito, com alguns enfrentamentos, com perseguição política, com ameaça de morte. Essas coisas todas que quem está na luta passa” ponderou.


Adiante, em sua exposição, a professora Tatiane Godoy alertou que a pandemia escancarou as mazelas do trabalho. “O que se evidencia e se aprofunda é um processo de exploração do trabalho, que não é novo, e é próprio desse sistema que a gente vive. O que acontece é que essa pandemia, ela revela, amplia e intensifica dinâmicas que são próprias do capitalismo, de exploração do trabalho”.

Godoy também expôs como as características históricas da formação da sociedade brasileira, implicam na manutenção dessas dinâmicas e como elas atingem de maior forma às mulheres.: “[...] essas condições ganham contornos ainda mais incisivos, quando a gente pensa uma sociedade brasileira que tem como herança histórica escravidão, patriarcado, colonialismo, e como tudo isso oferece condições ainda mais específicas de precarização e de opressão sobre as mulheres” concluiu.

Assista a íntegra do debate em: https://www.youtube.com/watch?v=zNPnYN2eLpw