Debate: Legados da ditadura e autoritarismos no Brasil

Legados da ditadura e autoritarismos no Brasil da pandemia, foi o tema da live promovida pelo Sindicato dos Servidores da Universidade Federal de São João del-Rei (Sinds UFSJ) e pela Seção Sindical dos Docentes da UFSJ (ADUFSJ), na última quinta-feira (28). De acordo com a jurista Maria Clara Santos, o encontro teve o objetivo de debater a crise sanitária e política que estamos enfrentando, esta última, agravada em razão da pandemia de Covid-19. Santos é 1ª Secretária da ADUFSJ, professora do DECIS da UFSJ e mediou o encontro, onde destacou que “está crise vem sendo marcada por uma série de rupturas e continuidades”.


Para abordar a vertente autoritária do momento atual e apontar as considerações acerca dos resquícios ditatoriais implícitos nas práticas perpetradas pela alta cúpula do congresso e boa parcela da equipe ministerial e do chefe de estado da nação brasileira, o encontro contou com a participação de um seleto time de debatedores.


Cúpula militar e criminalização da política


Ao abrir a discussão, Afonso Alencastro, historiador, professor e Pró-reitor Adjunto de pesquisa da UFSJ, apontou que é necessário delimitar quais são os resquícios da ditadura militar que compõem o bojo da atualidade e revelou uma preocupação. “Há uma conjunção de fatores e também de elementos que participaram, portanto, da criação daquele regime, e alguns desses elementos retornam ao cenário, no momento em que estamos vivendo. Eu falo aqui com muita preocupação, do inchaço da máquina do Estado, do executivo, com a militarização. Uma militarização que não é desconhecida” pontuou.

Corroborando as considerações tecidas por Alencastro, Luiz Francisco Miranda, que também é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSJ, externou sobre a existência de um quadro analítico do autoritarismo no Brasil, que se destaca em dois momentos. O primeiro, se reproduz no que ele classifica como conjuntura curta, e se materializa na escalada da violência que ocorre desde meados de 2013.


Para Miranda, nesse primeiro cenário se destacam fenômenos característicos do autoritarismo. “Um deles por exemplo foi a criminalização da política, que foi desastrosa para o país. Hoje nós temos partidos políticos destroçados por um movimento de criminalização da política” concluiu.




Assassinato de lideranças


Ainda segundo Luiz Francisco, outro seguimento que têm sofrido com a escalada autoritária são os movimentos sociais e suas lideranças. “A exibição mais emblemática disso é o assassinato da Marielle. E nós vamos assistir desde 2013 uma intensificação de crimes políticos e das mortes de líderes sindicais e minorias políticos. O que vem acontecendo com os indígenas por exemplo, é horrível, e isso é um outro aspecto que eu gostaria de chamar a atenção” enfatizou Miranda.


Fenômeno estrutural


Engrandecendo o debate, o geógrafo e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Thiago Araújo Santos, destacou que é importante estabelecer as distinções entre os fenômenos da formação estrutural da sociedade e àqueles conjunturais. “Essa distinção é muito importante pra que a gente compreenda a relação entre autoritarismo e bolsonarismo, mas também, de autoritarismo e ditadura militar. Sobretudo, pra que a gente entenda de que modo se consegue um consentimento e uma adesão tão fatídica das massas a esses fenômenos políticos.”.


O pesquisador destaca que essa adesão das massas ao movimento ditatorial, reforça a ideia de que o autoritarismo é algo atrelado a sociedade brasileira de maneira estruturante nas relações sociais. Nesse sentido, Thiago defende a necessidade de pensar o porque esse movimento tem tanta aderência no contexto político contemporâneo.


“O autoritarismo não está automaticamente ligado ao bolsonarismo, nem tampouco a ditadura militar brasileira, ainda que esses momentos conjunturais sejam expressões desenvolvidas e maduras desse fenômeno. É necessário que a gente compreenda melhor como ditadura e bolsonarismo conseguem adesão das massas, dialogando com o que ao meu ver, são aspectos estruturais da formação cultural e social brasileira” concluiu Santos.


Assista abaixo a íntegra do debate.